PRAIA DOS PAULISTANOS

PRAIA DOS PAULISTANOS

Inaugurado há 50 anos, Minhocão se transforma no principal ponto de encontro e lazer no Centro de São Paulo

No Centro de São Paulo, um elevado com 3,4 quilômetros de extensão serve como pista para carros no caótico trânsito paulistano durante as manhãs e tardes de segunda a sexta-feira. Já à noite, o local é fechado para os veículos e tomado pela população da cidade para caminhadas e passeios de bicicleta. Mas é, de fato, nos finais de semana, quando é aberto exclusivamente para pedestres, que o Elevado Presidente João Goulart se transforma na “Praia dos Paulistanos”.

Caixas de som, skates e piqueniques improvisados com cangas substituem os veículos aos sábados e domingos, sejam eles ensolarados ou não, e reúnem amigos e familiares que desfrutam de atividades de lazer — criadas e elaboradas por eles mesmos. Dessa forma, o Minhocão, como é popularmente conhecido, vai se tornando um dos principais pontos de encontro e escapismo dentre tantos prédios que cortam os horizontes de quem mora na capital.

Inaugurado em 1971 para desafogar o trânsito, neste ano o elevado completa 50 anos. E na pandemia do coronavírus, enquanto muitos de nós, confinados, lutamos por uma fresta de sol em nossos pequenos apartamentos na capital paulistana, a via expressa passou a ser descrita pelos seus visitantes como um “respiro” em meio ao caos — feito preferencialmente de máscara e mantendo o distanciamento social.

Boas-vindas

Em um dos dois acessos de escada recentemente instalados nas laterais do Minhocão, Robson de Jesus é quem dá os primeiros cumprimentos a quem chega por lá.

Com o traje laranja e preto da segurança, o funcionário, de 37 anos, carrega consigo um contador, uma espécie de relógio de bolso, para ter uma noção mínima da quantidade de pessoas que sobem a escada que dá acesso ao elevado.

“É muita gente, não tem nem como ter muita noção”, conta ele, que trabalha no local há cerca de um mês e mora no bairro da Vila Formosa, Zona Leste de São Paulo.

Antes de posar para a foto, em que ele faz questão de não ser registrado de forma desleixada, pois está no “horário de serviço”, Robson relembra que o local, antes de ser o seu “ganha pão”, já era presente na sua infância.

Agora eu só venho para trabalhar, mas frequento desde criança, há uns 27 anos. E já era assim, com a galera vindo tomar um sol. Nessa época, eu costumava andar de patins e skate”

O trabalho, como conta o segurança, é “sossegado” no geral. No entanto, ele faz questão de alertar a reportagem e aos visitantes o que ele considera ser o único problema do Minhocão: “Tem que ficar esperto com os ladrões de celular. Eles se misturam com o povo de bicicleta, aí já viu, né?”.Keiny Andrade/UOLKeiny Andrade/UOL

“Um lugar de respiro”

Sentados no concreto pintado de branco que durante os dias separam os carros nas direções opostas, o grupo formado pelos atores Bruno Damásio, 25, Caio Macedo, 29, e Arthur Monteiro, 28, representa os típicos millennials frequentadores do Minhocão.

“Tem pouco espaço para fazer isso”, comenta Bruno, com o pinscher Jesuíno no colo, ao ser questionado sobre o que costuma fazer com os amigos por lá. “É o único lugar que dá para encontrar amigos e andar de bicicleta aqui no Centro”.

Deitado, Caio complementa de forma enfática:

É um lugar de respiro e, por mais que não haja interação, você vê outras pessoas, sabe? É diferente, principalmente quando você tá isolado, e existe essa possibilidade. Acaba sendo uma questão de saúde mental”

“Eu acho que nem deveria abrir para os carros, porque se tornou um refúgio. Acredito que por ser um lugar mais alto cria essa sensação”.Keiny Andrade/UOLKeiny Andrade/UOL

Banho de sol contra a realidade

Em um dos bancos de madeira — em caráter experimental aos finais de semana e feriados —, quem via Clodoaldo Rizzo poderia jurar, de pés juntos, que o passeio era um dos seus maiores momentos de paz. De olhos fechados enquanto o sol batia no verde do uniforme que vestia, o militar do exército aposentado visitava o Minhocão pela primeira vez.

“Não sabia nem que podia frequentar, fiquei sabendo hoje. Por incrível que pareça”, revela ele, enquanto reúne duas bolsas com seus pertences e cede um lugar para que eu me sente mais próximo a ele.

Da primeira geração de italianos em São Paulo, como se orgulha de dizer (assim como o fato de ter participado do combate contra Che Guevara), o senhor, de 73 anos, conta que saiu de Cotia e foi até lá depois de ter visitado um antigo colega internado em um hospital próximo, em consequência do coronavírus.

“Saí do hospital e… sabe quando você fica chateado?”, questiona ele, que já foi vacinado, depois da insistência de antigos chefes do exército e de reforçar que acredita em Deus em primeiro lugar, antes da ciência. “Então, vim tomar um sol e estou gostando muito. Vi esses bancos e falei para um moço de laranja: ‘posso entrar?’ E eles me disseram para ficar à vontade.”

Keiny Andrade/UOLKeiny Andrade/UOL

“Lugar sagrado”

O vira-lata caramelo Simba late para todas as bicicletas que passam próximo ao grupo de amigos formado por Vick Duarte, 23, Jéssica Paulino, 25, Isabelle Ribeiro, 25, Wellinton Ferreira, 29, e Daniela Lemos, 25.

“Na pandemia, o Minhocão virou um lugar sagrado”, opina a publicitária Isabelle, de óculos escuros e cabelo pixie. “Vejo que muita gente vem para cá para caminhar, andar de bicicleta e tomar um sol”.

A enfermeira Jéssica Paulino destaca ainda a fama do local: “As pessoas estendem as coisas aqui e tomam sol. Vira uma praia, mas agora tá meio frio”, diz aos risos e apontando os casacos carregados pela turma.

O também publicitário Wellinton cita o projeto de transformação do elevado em parque, o que, para ele, pode ser positivo em alguns pontos.

Se transformado em parque, vai acabar com a movimentação de carro e ter menos poluição, o que é bom principalmente para quem mora nos prédios ao lado. Seria uma melhora da qualidade de vida”Keiny Andrade/UOLKeiny Andrade/UOL

“Uma forma de se apropriar da cidade”

Com duas cangas estendidas no chão, Thais Fregolent, 24, Luiza Ferrari, 25, Laura Fraiz, 24, e Ugo Silva, 25, moram perto do Minhocão, embora não costumem ir até o elevado com tanta frequência.

“A gente vem tomar um sol, sair de casa. Vitamina D é importante”, brinca a artista Laura, com a blusa em estampa de onça. “Tá muito legal, toda vez que eu venho fico querendo vir mais”.

Para a socióloga Luiza, vestida toda de preto, a ocupação do Minhocão é uma atividade social, mas também política:

Mesmo sendo um espaço público, carro prevalece mais do que pedestre. É uma forma de se apropriar da cidade”

Quieto até então, o arquiteto Ugo se manifesta sobre o projeto da criação do parque, destacando os contrapontos: “Acho que não é uma prioridade transformar em parque. Acho que os problemas fora do Centro exigem um orçamento que se gastaria aqui e são mais urgentes”.

“Mas, de um ponto de vista geral, eu sou a favor”, conclui o jovem.

Keiny Andrade/UOLKeiny Andrade/UOL

“Momento para descansar e curtir”

A animação de Gabriel, de 4 anos, era nítida em cima da pequena bicicleta com rodinhas. Acompanhado pelo pai e a mãe, Edísio Anjos, 23, e Thais Araujo, 23, é ele quem leva os pais para passear.

“É o Gabriel quem induz a gente vir pra cá nos finais de semana, a situação é meio invertida”, brinca o comerciante.

Enquanto a mãe tenta controlar o filho para que ele não saia desbravando o Minhocão sozinho sob as duas rodas, Edísio conta sobre a relação da família com o elevado.

“Agora, a gente vem com frequência, antes não vínhamos muito”, conta. “Tomar sol e dar uma relaxada. Trabalhamos a semana inteira, então esse é o momento que temos para descansar e curtir”.

Sobre o projeto do parque, o pai vê o lado positivo e negativo: “Para mim, é bom por um lado e ruim pelo outro. Para o pessoal que gosta de andar aqui em cima é legal ter algo diferente. Já para os carros, pode complicar, porque ele dá uma facilitada no trânsito”, conclui.Keiny Andrade/UOLKeiny Andrade/UOL

“Aqui temos um horizonte”

Eduardo Makino, 44, e Fernanda Fraiz, 37, parecem estar aproveitando um passeio para um date romântico. Enquanto o diretor de fotografia está deitado no colo da realizadora audiovisual, duas garrafinhas de cerveja ilustram o cenário do momento a dois do casal.

Se namoram ou são casados, nem eles mesmos sabem dizer: “Como dizem: é complexo”, diz Fernanda.

“Como a gente não toma sol na pandemia, esse é um lugar que você pode fazer isso longe das pessoas”, completa ela, que mora ao lado do Minhocão.

Eduardo então agrega sua opinião: “Acho que é importante ter esse espaço para as pessoas. Não há horizonte na cidade, e aqui nós temos”

“Melhor lugar na pandemia”

Enquanto o sol já se põe, Evelyn Marques transforma o elevado no seu próprio palco de dança. Com uma mini caixa de som cor de rosa, a estudante de 15 anos mostra os seus passos de break dance a quem quiser ver — ela os aprendeu sozinha e também compartilha os malabarismos no seu canal no YouTube.

“O Minhocão é um dos melhores lugares na pandemia pra mim”, diz ela ofegante, enquanto recupera o ar dos movimentos que acabou de fazer.

Orgulhosa, a mãe Valdineia Marques, 38, além de exaltar o talento da filha e dar o play no repertório das danças, celebra a existência do local para o lazer da família e critica os cuidados com os espaços públicos na cidade.

“Aqui no Centro não tem isso, é praticamente só essa região”, opina a dona de casa que mora na Santa Cecília, bairro próximo ao elevado.

Ainda falta muita coisa. Lazer é o básico para a população. A situação na qual estão as praças aqui perto… Não existe cuidado algum”

Enquanto passa álcool gel frequentemente nas próprias mãos e nas da filha, Valdineia conclui: “Sempre que dá, a gente vem, mas tem muita gente! Olha isso! Lotado!”.Keiny Andrade/UOLKeiny Andrade/UOL

Projeções Lerner Arquitetos Associados/Divulgação

O Parque Minhocão

Desde a criação do projeto para transformar o Minhocão em parque, o destino da via gera polêmicas, que navegam entre os que querem a demolição do elevado e os que defendem o fechamento exclusivo para uso recreativo.

A criação do Parque Minhocão começou a ser discutida desde a gestão do ex-prefeito Fernando Haddad (PT), que sancionou a lei de criação do parque em março de 2016 — mesmo ano que foi aprovada a alteração do nome do viaduto, de Elevado Costa e Silva para Elevado Presidente João Goulart. O Plano Diretor, aprovado em 2014 pela gestão, determinava como a cidade deveria crescer nos próximos anos e, entre outros pontos, previa a desativação do Minhocão.

Em fevereiro de 2018, a lei que cria o Parque Municipal do Minhocão foi promulgada pelo então prefeito João Doria e publicada no Diário Oficial. Em 2019, Bruno Covas decidiu que o elevado seria desativado e transformado em um parque.

“Quem definiu o uso do Minhocão nos últimos anos foram as pessoas e acho justo que elas definam o seu uso posterior”, opina Felipe Morozini, presidente da associação Parque Minhocão, citando discussões arquitetônicas, urbanísticas e sociais acerca do projeto. “O movimento começa a partir da população”.

O parque não são só as árvores, são as pessoas. O descaso do poder público sobre não saber o que fazer ali é aparente. Ali escancara-se a nossa desigualdade”

Rodrigo Faria G. Iacovini, advogado e mestre em planejamento urbano e regional pela USP, diz não ser “nem contra, nem a favor, nem muito pelo contrário”. Para ele, o processo de discussão do parque é a parte mais interessante.

“Isso mostra como a gente é pobre de espaços públicos”, opina Rodrigo, que atua ainda como coordenador da Escola da Cidadania do Instituto Pólis e assessor da Plataforma Global pelo Direito à Cidade. “A população tem a força de dizer e impor qual uso é interessante para ela, como ela quer se apropriar do espaço. E foi o que aconteceu no Minhocão. Ele foi, ao longo das décadas, repensado”.

“Não é à toa que o Minhocão foi ocupado, pois existe uma necessidade. A partir do momento que você possibilita que a população se aproprie de um lugar que passa carro, ela vai entender que ele não é exclusivamente para esses veículos. Também é para o pedestre”.Keiny Andrade/UOLKeiny Andrade/UOL

Fonte: www.uol.com.br

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