Eliane Gallo. Ex-paisagens: um outro espaço de cura

Eliane Gallo. Ex-paisagens: um outro espaço de cura

Com a exposição individual da artista visual no espaço expositivo do IA da UNESP em São Paulo, após acontecer no TOTE Espaço Cultural em Sousas, Campinas, e no Centro de Memória Santa Cruz em Amparo (cidade onde Eliane reside e trabalha) em 2025, surge a oportunidade de exercitar e concretizar a libertação sensorial desses processos artísticos que acompanham Eliane. Isso ao fazer pulsar artérias estéticas na concepção, construção e visibilidade das obras de arte que reverberam em manifestos visuais carregados de tensionamentos formais, conceituais e espaciais.

Na exposição as instalações Território de cura 1 (2026) e Manto de cura I (2024/2026), são os núcleos articuladores e irradiadores de subjetividades em obras de arte que abordam sobrevivência, o feminino e seus matizes, a memória como força vital e afetiva, a espiritualidade e seus padrões cíclicos, por exemplo. Heterotopias sensíveis para dialogar com os postulados de Michel Foucault e com a noção de paisagem expandida. O conjunto das obras opera como cartografias afetivas, onde cada instalação funciona como microterritório de cura em sua potencia conceitual, formal, cromática e espacial. O percurso propõe gradações entre imersão, fricção e contemplação e absorção. Com isso destaque para   a premência e pertinência destas discussões no contexto acadêmico. 

Na articulação de operações, a (des) conjunção de territórios – espaciais, pictóricos, sensoriais – e a ausência de fronteiras propiciam o surgimento de paisagens inéditas, construções fragmentadas e integradas. A partir disso, são geradas formas, enquadramentos e dimensões que nos conduzem a novas percepções que ativam e integram novas abordagens, orientação espacial e escalas, ao estruturar cartografias em planos pictóricos que se transformam em forças de ruptura e desafios imersivos e associativos. Em cada espaço expositivo a artista se desafia para aprofundar as relações das obras de arte e os espaços arquitetônicos e vice-versa. Ritmos e arritmias sensoriais, cromáticos e humanos com as suas complexidades na vida e na arte.

Ex-paisagens é passado no presente, e futuro consolidado, são paisagens que não deixaram de ser porque a memória é inatingível e como inatingível é o poder categorizar dogmaticamente a pesquisa da artista visual: paisagens heterotópicas em obras de arte. Contudo, não deixam de ser paisagens que subjetivamente carregam as lavas vulcânicas da vida, das experiências, das convicções, do Eu e dos OUTROS. Como pontua a artista:

Eu sou uma artista mulher que utiliza a materialidade como um caminho para alcançar um estado curativo que traduza sensações familiares e reconfortantes. […]. Crio paisagens em movimento para realizar mergulhos, adentrando nas profundezas repletas de memórias, que emergem da minha mente. […]. O meu estado é de uma paisagem de micélios, uma arquitetura da vida natural. Sou orgânica e obscura, tendo já abrigado fungos, bactérias e outros seres. […]. Vivo em círculos, em um repertório eterno onde o fio aquece a alma, permitindo-me contemplar inúmeras possibilidades de ser mulher. Estou no centro vivo e delicado da existência, um sopro de ar fresco que me conduz à meditação. Ainda não vislumbro o desfecho da trama, e apenas respiro.

Território de cura 1 (2026) aparece como um oásis de paisagens anteriores, onde cada momento usufruído se transforma em memória, tempo e movimento. A artista visual traz os embates pessoais que aguçam seu fazer artístico em poemas condensados em metáforas. A densidade conceitual e espacial da instalação, o cromatismo acentuado e o branco como prolongação da pesquisa numa busca espacial, também, como pretexto para inserir o espaço arquitetônico no mesmo protagonismo cíclico. 

Meu ser é um jardim em suspensão. Um cenário em constante dança.

Os fios de pensamentos e emoções. Vivo o girar num eterno espetáculo. Um cenário em constante mudança.

Ouço o seu encanto.

Esse cenário mutante e em suspensão nos atravessa como espectadores/participantes em seus cromatismos cartográficos ou nas constelações delineadas de fruição, fricção e cores resultantes. A paisagem chega, nos envolve e nos acolhe em sua luxúria, em seus devires, guiada pelo gesto singular e de criação ímpar da artista, revelado em suas palavras

“Deixo minhas mãos acontecerem nos vermelhos e roxos. A natureza envolve e me chama para uma paixão voluptuosa. Instante vivo perecível. Fio luxurioso que me aquece a alma, e me faz contemplar as suas infinitas possibilidades de ser mulher. Estou no centro vivo e mole da vida. Sopro de ar fresco que me faz meditar. Ainda não vejo o final da meada e respiro”.

Suas obras de arte são como casulos em corpos, onde os corpos anatômicos usufruem, vibram e pertencem às instalações. Ou talvez sejam corpos em casulos, que se aproximam e repelem, se acariciam e nos acariciam com seus cromatismos, como um tabuleiro de xadrez, dando espaço para que o vazio também seja protagonista. Nos interstícios instáveis, suas obras nos atingem no lado doloroso da nostalgia, do desejo, da dor, da alegria, da saudade e do olvido. Tudo isso é provocado pela artista, que ao criar suas obras, evoca a imagem de um casulo, uma proteção feita pelo corpo e para o corpo.

As obras de arte na exposição e o conjunto de modalidades artísticas construídas por Eliane aparecem como casulos de dinâmicas, poéticas e dialéticas subjetivamente borbulhantes. A artista visual nos transporta para nossas realidades através de irradiações que alcançam outras esferas do conhecimento humano. 

 Manto de cura I (2024/2026) valida a preocupação da artista com a participação e/ou interação dos espectadores com suas instalações. Esta relação é potencializada pela movimentação das materialidades e os processos e técnicas artísticas como a arte têxtil, a instalação, a fotografia. Consequentemente os embates pessoais e sociais que a motivam podem ser evidenciados. Assim aparecem novos territórios de cura.

Em seus itinerários, as obras de arte são artérias, ipueiras, que agem ou agiram como espaços de cura, de sobrevivência e de vivências. Esse é o papel da arte de projetar o que nos atinge e também de atingir, de ferramenta de expressão do solapado individualmente relatado, empolgante e penetrante ao ímpeto coletivo.

A exposição constitui a oportunidade de vivenciar a potência artística, perseverança, humanismo e capacidade criadora de Eliane Gallo. De corroborar a força das pesquisas de artistas visuais fora das grandes cidades com aparelhamento artístico mais solidificado, assim como as ações dos espaços independentes fora dessas metrópoles. Um privilégio compartilhado com todos, ou quase todos.

Local: Galeria Alcindo Moreira Filho

Ia Unesp

Rua Aloysio Biondi – s/n

Barra Funda -SP

De 02/04 a 17/04

PhD Andrés I. M. Hernández – Curador – São Paulo verão de 2025/2026.

Bibliografia consultada

  • DA CUNHA, Euclides. Os Sertões. Introdução de Adelino Brandão. São Paulo: Martin Claret, 2023.
  • FOUCAULT, Michel. O corpo utópico, as heterotopias. Posfácio de Daniel Defert. São Paulo: Edições n-1, 2013.

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